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Qual é o nosso dever ao iniciar um profano?

É fornecer-lhe as chaves que permitirão, em um primeiro momento, descobrir sua realidade; em um segundo momento, tornar-se ele mesmo, atualizando suas potencialidades, ou seja, ser um homem verdadeiro e indivisível; e, por fim, dar-lhe consciência da necessidade de engajar-se em uma verdadeira jornada espiritual. Além disso, abre-se o caminho reto para aquilo que se relaciona à alma como emanação e reflexo de um princípio superior, caminho particularmente destacado no Rito Escocês Retificado (RER). É o que René Guénon chama de “os pequenos mistérios[1]”. Este conjunto, claro, representa um ideal, e a realização de cada uma dessas etapas é, como você verá, difícil e, muitas vezes, permanece no nível virtual.

Em tudo o que se seguirá, compartilharei com vocês uma reflexão pessoal. Ela se concentra no que recebemos ou descobrimos por meio do nosso Rito, de seu estudo e de nossas trocas. Nossa reflexão deve nos levar a reexaminar, à luz de nossa tradição, ideias frequentemente aceitas sem questionamento sobre a natureza espiritual do homem e sobre a própria noção de cristianismo tal como é expressa em nosso Rito. Deve, conforme os textos fundadores do Retificado, nos afastar de dados dogmáticos para nos conduzir a uma realidade mais íntima, mais próxima da essência original. Nunca se esqueçam do que um dia foi dito: “Se você tem verdadeira coragem e inteligência, levante este véu”, ou esta exortação que não se aplicaria apenas no instante da prova, mas é algo que se deve levar para a vida.

Nossos rituais, seja qual for o Rito, participam de um ‘fundo comum’ que constitui uma parte importante. Existe uma realidade iniciática imemorial, é inegável; que ela percorra caminhos diferentes não compromete em nada sua eficácia. O Rito Retificado, por mais particular que seja, não se desvia em nada da realidade maçônica. Não devemos esquecer que está escrito (João 14,2): ‘Há muitas moradas na casa de meu Pai’.

Em cada rito, essa parte comum se reveste de forma diferente, se me permitem essa imagem. Essa vestimenta modifica seu sabor, ou seja, a orientação profunda dada aos símbolos colocados em prática. É assim que se situa e se concretiza a especificidade de cada rito. Fazendo abstração dos rituais propriamente ditos, façam o exercício seguinte:

1º passo: Peguem a catecismo de Perguntas e Respostas no grau de aprendiz no RER e comparem-na à instrução do Rito Francês.

2º passo: Subtraiam o que é comum e lhes restará o que é específico ao RER. Vocês ficarão surpresos com o resultado obtido.

3º passo: Releiam os dois textos, mas os recolocando no espírito do rito correspondente. Vocês verão que tudo é uma questão de percepção, pois as palavras não são mais que o vestuário da coisa que descrevem.

Se fizerem esse exercício com os rituais dos três primeiros graus, perceberão muito facilmente a orientação que o RER dá desde a Câmara de Preparação. Vocês compreenderão então, sem dificuldades, que o eixo maior de interpretação de cada um de nossos símbolos comuns (Estrela, Sol, Lua, Acendimento das luzes, Candelabros, Esquadro, Compasso, etc.) se torna diferente pela explicação de cada uma dessas diferenças interpretativas, e isso exige um trabalho completo. Infelizmente, isso requer ter realmente assimilado o conteúdo dos três primeiros graus. Nosso TRF[1] Pierre Noël[2] acrescentava:

‘Reafirmo que o RER é a maçonaria francesa clássica mais Martines de Pasqually, relido por J.-B. Willermoz e reinterpretado por Saint-Martin. Quem não compreende isso e lê o RER à luz exclusiva de René Guénon e das deformações introduzidas no final do século XIX jamais compreenderá nada do nosso rito. ’

Para começar a situar o RER (Rito Escocês Retificado) entre os diversos Ritos praticados, segue um extrato da comunicação feita no Togo em julho de 2003, durante a reunião dos GP Retificados por Pierre Noël, então GM do GPDB:

“O objetivo de nossa instituição (o RER) é a defesa e a promoção de uma certa forma de maçonaria tradicional, baseada no ideal cavalheiresco cristão, mas também nos ensinamentos próprios do Rito, que são expostos, de forma ainda velada e sutil, no grau-chave do sistema: o mestre escocês de Santo André. Enquanto a ‘ordem interior’, ao mesmo tempo maçônica e templária, pode parecer próxima de outros Ritos anglo-saxões ou escandinavos, ela compartilha do mesmo ideal cavalheiresco que caracteriza o grau ‘iniciático’ da maçonaria Retificada, o mestre escocês de Santo André, e contém, em si, o discurso específico de nosso Rito, aquele desejado por Jean-Baptiste Willermoz. Embasado na visão teosófica de Martinez de Pasqually, esse discurso vai muito além das ambições sociais e políticas, ao propor ao ‘homem do Desejo’ um caminho (uma via?) Que pode lhe abrir a porta para o infinito e trazer respostas às questões eternas do buscador, um aprendiz espiritual, sobre sua origem e seu destino.

O estudo desse discurso é o começo e o fim da ordem. Ele deveria ser o essencial de nossos trabalhos, assim como era o essencial das cédulas estabelecidas com esse único objetivo por Willermoz.”

De fato, o RER é um Rito que se apresenta abertamente como cristão. Ele carrega uma ideia forte: a de uma Maçonaria regular e cristã tal como era em suas origens.

1 O termo “pequenos mistérios” é definido por René Guénon como sendo a perfeição do estado humano, o retorno ao estado primordial, que é o fruto espiritual que pode experimentar o “homem verdadeiro”. Ele define igualmente os “Grandes Mistérios” como relacionados à realização efetiva, ao alcance do homem transcendente, aquele que integrou os estados que ele qualifica como “supra-humanos”, em certo sentido os estados angélicos e superiores na escala hierárquica. Trata-se da realização de uma junção entre a natureza individual humana (mundo encarnado do sensível) e a natureza divina (mundo supra-sensível). (René Guénon, Aperçus sur l’Initiation, capítulo XXXIX, entre outros, e em um artigo da Acta Macionica, Volume 17).

2 Très Respectable Frère – Título honorífico: Muito Respeitável Irmão

3 Pierre Noël é uma figura de destaque dentro do estudo da Tradição e do Rito 

Escocês Retificado (RER), tendo contribuído significativamente para o entendimento histórico e doutrinário desse rito. Embora não seja amplamente conhecido por todas as vertentes maçônicas, ele é respeitado por estudiosos que se aprofundam no simbolismo e na filosofia do RER.

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