por Sandro Nitri – EN
Introdução:
Este artigo tem como objetivo principal estimular a reflexão, promover questionamentos e demonstrar, com base em documentos e fontes historiográficas, que o título “A Jornada da Maçonaria Cristã ao Regime Escocês Retificado” não é apenas um jogo de palavras ou um recurso retórico. Pelo contrário, ele reflete uma realidade concreta, apoiada em fatos e registros históricos autênticos. Buscando, de forma clara, esclarecer equívocos recorrentes, apresentar um panorama fiel da história da Maçonaria e destacar, com fundamentos sólidos, a continuidade da identidade cristã em sua trajetória — especialmente por meio do Regime Escocês Retificado (RER).
A Origem e Permanência Cristã da Maçonaria
A ideia matriz pode ser sintetizada da seguinte maneira: desde suas origens, tanto na fase operativa quanto na especulativa, a Maçonaria possui um caráter profundamente cristão. Com o tempo, esse vínculo sofreu um processo de erosão, ainda que:
– De forma lenta e gradual;
– De maneira não uniforme;
– Com diversas resistências internas;
– E jamais de forma plenamente concluída.
Neste contexto, o Regime Escocês Retificado se destaca como uma das expressões mais significativas da preservação e aprofundamento dessa identidade cristã, representando não apenas um rito tradicional, mas um sistema doutrinário estruturado sobre fundamentos cristãos explícitos.
Metodologia e Abordagem
A abordagem adotada neste artigo é histórica e fundamentada, a partir de fontes primárias, documentos históricos e manuscritos. O objetivo não é defender nem criticar o RER, mas apresentar os fatos e interpretá-los à luz da historiografia e dos registros disponíveis, buscando uma compreensão mais aprofundada e assumindo uma postura de neutralidade acadêmica e respeito aos fatos.
Quatro Pilares Analíticos
A tese está estruturada em torno de quatro eixos fundamentais:
1. A Maçonaria teve, desde suas origens, um caráter cristão declarado.
2. O afastamento do Cristianismo foi um fenômeno lento, com muitas exceções notáveis.
3. O Rito Escocês Retificado representa uma dessas exceções e reflete a continuidade da tradição cristã.
4. A doutrina do RER não apenas conserva, mas aprofunda a matriz cristã da Maçonaria, com características próprias e coerentes.
A Raiz Cristã da Maçonaria Operativa: Provas Documentais
O argumento da origem cristã da Maçonaria é sustentado com base em documentos históricos denominados Old Charges, manuscritos redigidos entre os séculos XIV e XVIII que serviam como códigos morais e organizacionais das corporações de maçons operativos. Esses textos, considerados as constituições primitivas da Maçonaria, contêm orações, referências religiosas e exigências de conduta que comprovam, de forma irrefutável, a presença dominante do Cristianismo.
Entre os exemplos mais emblemáticos, destacam-se:
O Manuscrito Regius[1](1390)
O Manuscrito Grand Lodge nº 1[2](1583)
O Manuscrito Dumfries nº 4[3](c. 1710)
Esses registros evidenciam que a Maçonaria operativa:
– Era cristã em sua essência;
– Fundava sua simbologia na visão de mundo cristã;
– Interpretava o Templo como metáfora da Igreja;
– Venerava Cristo como modelo do construtor espiritual;
– Requeria fidelidade a Deus, à Igreja e ao monarca legítimo.
A Transformação do Século XVIII: Da Cristandade à Universalidade
O ponto de inflexão ocorre com a fundação da Grande Loja de Londres, em 1717, e, principalmente, com a publicação das Constituições de Anderson em 1723. Estas marcaram a transição da Maçonaria operativa (cristã, hierárquica e sacramental) para a especulativa (filosófica, simbólica e progressivamente universalista).
Constituições de Anderson: Ambiguidade e Ruptura
O Artigo 1 das Constituições diz:
“Todo maçom deve obedecer à lei moral e não ser um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. […] Basta que professe a religião sobre a qual todos os homens concordam, deixando a cada um suas opiniões particulares.”
Embora essa redação sugira uma tolerância ampla, no contexto original, ela visava a reconciliação entre cristãos divididos (católicos e protestantes), não uma abertura a todas as religiões.
O Noaquismo: Uma “Religião Natural” Comum
A base filosófica subjacente era o Noaquismo[4], ou seja, um conjunto de princípios morais e espirituais considerados universais, derivados da aliança entre Deus e Noé. Este sistema era entendido como o denominador comum mínimo do Cristianismo, e não como deísmo ou laicismo.
No entanto, essa ambiguidade abriu caminho para uma secularização progressiva:
– Primeiramente prática (descristianização de facto);
– Em seguida normativa (descristianização de jure).
O Iluminismo[5], com sua exaltação da razão e desconfiança da religião institucional, acelerou esse processo.
Resistência Interna: Os Antigos, o Arco Real e a Tradição Cristã
A resistência à neutralização religiosa da Maçonaria manifestou-se com a fundação da Grande Loja dos Antigos, em 1751. Esta organização visava restaurar a espiritualidade cristã dos rituais tradicionais e se opunha frontalmente à tendência laicizante dos Modernos.
Entre os defensores dessa postura estavam os maçons ligados ao grau do Arco Real, cujos rituais exaltavam diretamente a figura de Cristo como o verdadeiro Templo espiritual. O livro Spirit of Masonry[6](1775), de William Hutchinson, interpreta os três graus simbólicos como representações graduais da religião cristã revelada.
A Maçonaria na França: Cristandade Institucionalizada
Ao adentrar o continente europeu, especialmente a França, a Maçonaria manteve por muito tempo sua matriz cristã explícita. O século XVIII francês testemunhou uma maçonaria fortemente cristã em sua estrutura simbólica e organizacional:
– Lojas chamadas de “Lojas de São João”;
– Juramentos sobre o Evangelho;
– Rituais com referências diretas à expansão do Cristianismo do Oriente para o Ocidente; – Forte presença do clero: monges, padres, bispos e outros membros eclesiásticos eram iniciados e atuantes.
Esses fatos são atestados por:
– Arquivos eclesiásticos (inclusive do Vaticano);
– Relatórios da polícia francesa da época, que espionava reuniões maçônicas; – Documentos de lojas maçônicas.
Exclusões Religiosas: A Questão Judaica
O artigo também destaca episódios de exclusão de judeus em determinadas lojas, como ocorreu em Bordeaux, em 1791. A justificativa era de ordem religiosa: a recusa em reconhecer Jesus como o Messias (e São João como figura espiritual central) era vista como obstáculo à iniciação. Tais práticas devem ser compreendidas à luz do contexto histórico e não como princípios absolutos da Maçonaria contemporânea.
Adaptações das Constituições na França e Suécia
Na introdução das Constituições de Anderson à França, ocorreram adaptações significativas:
– Versão Francesa (1735): “[…] exige-se apenas a religião que todo cristão aceita, deixando a cada um seus sentimentos particulares.”
– Versão Sueca: “[…] exige-se que sejam cristãos, fiéis à sua promessa.”
Estas versões reforçam a tese de que a Maçonaria continental ainda considerava o Cristianismo como base comum e essencial.
Persistência do Exclusivismo Cristão
Mesmo nos dias atuais, existem ritos que mantêm a exigência de fé cristã para a admissão:
– Rito Escocês Retificado;
– Ritos escandinavos[7] (Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia e Alemanha).
Conclusão: A Tradição Cristã Como Núcleo Histórico da Maçonaria
O percurso histórico traçado até aqui evidencia, com abundante documentação, que:
– A Maçonaria nasceu cristã e assim permaneceu durante séculos;
– A secularização foi um processo lento e não uniforme;
– O Rito Escocês Retificado representa a continuidade fiel e coerente dessa tradição cristã original;
– A maçonaria universalista, laicizada e inclusiva em sentido amplo, é uma construção posterior, especialmente desenvolvida a partir do século XIX.
Em síntese:
O que hoje parece estranho a alguns — uma maçonaria cristã e até mesmo exclusivista — era, no século XVIII europeu, a norma. E o RER não é uma anomalia conservadora, mas um herdeiro legítimo de uma tradição espiritual autêntica e documentada.
Maçonaria Retificada – Regime Escocês Retificado
Muito se fala sobre os diversos ritos da maçonaria, mas pouco se entende sobre a verdadeira estrutura de alguns de seus sistemas mais complexos e profundos. Entre eles, destaca-se o Regime Escocês Retificado, um modelo singular que vai além do rito – oferecendo não só práticas rituais, mas também uma doutrina filosófica e espiritual de rara coerência e profundidade.
Rito ou Regime? Uma Distinção Esclarecedora
Antes de adentrarmos na essência do Regime Escocês Retificado, é preciso esclarecer uma confusão comum. As palavras “rito” e “regime” costumam ser usadas como sinônimos. Mas, na maçonaria, têm significados distintos. Enquanto o ritose refere às cerimônias e à forma ritualística – como a disposição da loja e os procedimentos iniciáticos – o regimediz respeito à organização hierárquica dos graus e às autoridades que os regulam. O Regime Escocês Retificado é, portanto, um sistema completo, com estrutura, finalidade e identidade próprias.
A Estrutura do Regime
Este regime se divide em duas grandes etapas. A primeira, chamada de “classe simbólica”, compreende os quatro graus fundamentais: Aprendiz, Companheiro, Mestre e Mestre Escocês de São André – este último considerado o ponto culminante da iniciação maçônica.
A segunda etapa tem caráter cavalheiresco: inicia-se com o grau de Escudeiro Noviço e culmina com o de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa. Essa progressão não é apenas hierárquica, mas pedagógica, filosófica e espiritual.

Jean-Baptiste Willermoz: O Arquiteto do Regime
O grande nome por trás desse sistema é Jean-Baptiste Willermoz (1730–1824), maçom francês de notável longevidade e profundo saber. De 1774 a 1782, com o apoio de grupos em Lyon e Estrasburgo, Willermoz moldou o Regime Escocês Retificado. Sua obra foi consagrada em dois importantes eventos: o Convento das Gálias (Lyon, 1778) e o Convento de Wilhelmsbad (Alemanha, 1782).
Willermoz bebeu de várias fontes: da maçonaria francesa do século XVIII, do sistema alemão da Estrita Observância Templária, e, principalmente, da doutrina teosófica de Martines de Pasqually, seu mestre espiritual.
Uma Maçonaria com Doutrina? Sim. E Muito Clara.
É comum encontrar maçons que se incomodam com a ideia de uma “doutrina” na maçonaria – talvez por confundirem o termo com “dogma”. Mas a palavra doutrina (do latim doctrina) significa simplesmente ensino, conhecimento transmitido por um mestre.
O Regime Escocês Retificado não apenas admite uma doutrina: ele a ensina explicitamente, grau por grau. Seus rituais são acompanhados de instruções formais e sistemáticas, que guiam o iniciado em sua jornada de autoconhecimento e retorno à origem divina.
A Queda e o Caminho de Volta
A doutrina retificada apresenta uma cosmovisão clara e comovente da condição humana. Quatro grandes ensinamentos sustentam essa visão:
1. O Homem Original
O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Em seu estado primitivo, vivia em unidade com o Criador, revestido de luz e destinado a reinar sobre o universo.
2. A Queda
Por livre vontade, o homem afastou-se de Deus e caiu. Perdeu a semelhança divina, embora tenha mantido a imagem. Seu corpo espiritual tornou-se carnal, e sua natureza passou a ser dual: espiritual e animal. Vive, desde então, em um estado de “morte espiritual”.
3. O Arrependimento e a Iniciação
Apesar da queda, a misericórdia divina provê ao homem meios de restauração – e um desses meios é a iniciação. O objetivo? Restituir ao homem a semelhança com Deus. A maçonaria, nesse contexto, é uma das formas pelas quais essa obra regeneradora se manifesta na história.
4. A Mediação Divina
A restauração, no entanto, não pode ser feita pelo homem sozinho. É necessária a mediação de um Ser divino, de natureza dupla (divina e humana), puro e incorrupto. Trata-se, como os textos deixam claro, de Cristo, o Reparador, cuja missão é recolocar o homem em sua destinação gloriosa.
Instrução, Consciência, Transformação
O Regime propõe uma pedagogia iniciática que busca uma mudança de consciência – passo essencial para uma real transformação do ser. Como disse Joseph de Maistre:
“O grande objetivo da maçonaria será a ciência do homem.”
Cada grau transmite uma parte desse conhecimento. E o fio condutor é claro: a construção, destruição e reconstrução do Templo – que nada mais é do que o próprio homem.
Desde o início, o iniciado é confrontado com esta máxima essencial:
“O homem é a imagem imortal de Deus; mas quem poderá reconhecê-la, se ele próprio a desfigura?”
Da Iniciação à Ressurreição
O destino final dessa jornada não é apenas simbólico. Ao fim do percurso, o que se apresenta não é um simples renascimento, mas a ressurreição, no sentido mais pleno e espiritual do termo. Assim como o Templo simbólico dá lugar à Jerusalém Celeste, o iniciado é chamado a abandonar sua condição corrompida e reencontrar sua glória original.
Uma Maçonaria para o Espírito
Mais do que um rito ou um conjunto de símbolos, o Regime Escocês Retificado se revela como uma verdadeira escola espiritual. Uma via iniciática que une tradição, doutrina e transcendência, voltada não apenas ao aperfeiçoamento moral, mas à reintegração ontológica do ser humano.
Conclusão
Ao final desta análise, torna-se evidente que há uma distinção fundamental entre a maçonaria contemporânea em sua forma mais difundida e o Rito Escocês Retificado (RER), especialmente no que diz respeito à dimensão espiritual, à natureza doutrinária e à finalidade iniciática.
A maçonaria simbólica praticada na maioria das obediências ao redor do mundo apresenta um caráter essencialmente deísta ou teísta amplo, permitindo ampla diversidade de interpretações religiosas e filosóficas. Nesse modelo, o cristianismo é frequentemente citado apenas de forma alusiva, como uma das muitas tradições que informam os símbolos e narrativas da Ordem. A lenda do Templo de Salomão, por exemplo, constitui o eixo central da ritualística simbólica, servindo como metáfora para o aperfeiçoamento moral e intelectual do indivíduo. As ferramentas do ofício de pedreiro — o esquadro, o compasso, o nível, o prumo — são utilizadas para transmitir ensinamentos éticos aplicáveis à vida cotidiana, independentemente da fé pessoal do iniciado.
Em contraste, o Rito Escocês Retificado apresenta uma proposta nitidamente cristã, não apenas em seu pano de fundo histórico, mas como fundamento doutrinário e espiritual do sistema. Desenvolvido no final do século XVIII, o RER surge no contexto do Iluminismo europeu como um movimento de restauração da maçonaria cristã tradicional. Inspirado na doutrina da Regeneração Cristã, no esoterismo cristão e nas ideias de místicos como Martines de Pasqually, o Rito propõe não apenas a construção simbólica de um templo interior, mas a verdadeira reintegração do homem com sua origem divina, corrompida desde a Queda.
Essa diferenciação se reflete claramente na ritualística. No RER, o iniciado é conduzido desde os primeiros graus a uma compreensão espiritual da existência, marcada por referências explícitas ao Evangelho, à figura do Cristo como mediador e ao papel da fé como instrumento de regeneração. O simbolismo, portanto, não é apenas moral ou filosófico, mas carrega um sentido soteriológico — ou seja, está diretamente relacionado ao destino espiritual do homem.
Além disso, os graus superiores do RER — particularmente o de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa (CBCS) — reforçam o compromisso cristão do sistema, não apenas como uma tradição de valores, mas como uma via iniciática de profunda exigência moral e espiritual, que convida o iniciado à caridade, à prática ativa do bem e à defesa de princípios evangélicos.
Dessa forma, é possível concluir que, embora ambas as tradições — a maçonaria simbólica contemporânea e o RER — compartilhem raízes históricas comuns e utilizem símbolos similares, elas divergem significativamente quanto à finalidade e à profundidade da experiência iniciática. A primeira propõe um caminho ético-universalista, enquanto a segunda oferece uma via espiritual cristocêntrica, voltada para a regeneração do homem à luz do Cristianismo esotérico.
Bibliografia:
1. GAMBIRASIO d’ASSEUX, Pascal. – El Rito Escocés Rectificado – un camino de vida Cristiana. Astúrias, Espanha: Masonica, 2021
2. MARQUES, Adílio J.; VIEIRA, Luiz. – Opúsculos à Tradição: introdução ao Martinismo e ao Rito Escocês Retificado.Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 2016
3. UCHÔA, Ricardo. – Rito Escocês Retificado – Maçonaria Cristã. Disponível no Clube de Autores
4. PINHEIRO, Ivan A. – RER – Cadernos de Estudos. Série de artigos disponíveis em [freemason.pt](https://www.freemason.pt) e [bibliot3ca.com](https://bibliot3ca.com)
5. PASQUALLY, Martines de. – Tratado da Reintegração dos Seres_. Organização e apresentação de Robert Amadou. 3a Ed. Curitiba-PR: AMORC – Ordem Rosa-Cruz, 2022
6. NEWTON, Joseph F. – Os Maçons Construtores – uma História e um estudo sobre a Maçonaria_. Londrina, PR: A Trolha, 2000
7. PINHEIRO, Márcio José. – A Maçonaria à luz da Bíblia. Disponível no Clube de Autores
8. INÁCIO, Fábio Gardenal. – As Mentiras Maçônicas e Eclesiásticas vol. 1_. Disponível no Clube de Autores
9. DE SOUZA CASTRO, Giane. – A Cruz e o Compasso: as relações entre Igreja Católica e maçonaria no contexto do ultramontanismo em Juiz de Fora_. Publicado na revista Sacrilegens
10. Congregação para a Doutrina da Fé. – Inconciliabilidade entre fé cristã e maçonaria. Declaração oficial do Vaticano, 1985
11. VAR, Jean-François. La Franc-Maçonnerie à la Lumière du Verbe. Ed. Dervy 1985
[1] O Manuscrito Regius, também conhecido como Poema Regius ou Manuscrito Halliwell, é o mais antigo documento maçônico conhecido, datado aproximadamente de 1390. Este manuscrito é composto por 794 versos rimados e oferece uma combinação de instruções morais, religiosas e profissionais destinadas aos pedreiros da época. Ele enfatiza a importância da obediência, honestidade, fraternidade e fé cristã. Contém invocações a Deus, exortações à oração diária, fidelidade à Igreja e louvores à Virgem Maria, revelando seu forte enraizamento cristão.
[2] O Manuscrito Grand Lodge nº 1 é um dos documentos importantes na história da Maçonaria, datado de 1583. Esse manuscrito, que contém algumas das Constituições e práticas dos maçons da época, tem grande importância para a história da Maçonaria, especialmente no contexto da Inglaterra. Ele é uma das fontes primárias que ajudam a entender a transição da Maçonaria operativa (baseada nas práticas de construção) para a Maçonaria especulativa (mais voltada para a filosofia e os princípios espirituais).
Entre os detalhes que podemos encontrar no Manuscrito Grand Lodge nº 1, destaca-se a preservação de práticas e rituais que ainda mantêm forte ligação com o cristianismo. O manuscrito inclui orações trinitárias, exigindo fidelidade a Deus e à Igreja, o que demonstra que, naquela época, a Maçonaria inglesa ainda se via como uma fraternidade claramente cristã.
[3] É um manuscrito maçônico escrito por volta de 1710, encontrado na cidade de Dumfries, na Escócia. Ele faz parte de um conjunto de documentos conhecidos como Old Charges (Antigas Obrigações), que funcionavam como códigos de conduta e instruções rituais para os maçons operativos. O Dumfries nº 4 é especialmente rico em conteúdo religioso e traz várias passagens explícita e inequivocamente cristãs. Ele é um testemunho direto de que, ainda no início do século XVIII, a prática maçônica estava fortemente ligada à tradição cristã.
[4] Em essência, o Noaquismo é: Uma ética universal, monoteísta, voltada a todos os povos, independentemente de religião, cultura ou origem. O termo “noaquita” também aparece nos contextos maçônicos, principalmente na Maçonaria anglo-saxônica. Algumas Obediências (como a UGLE – Grande Loja Unida da Inglaterra) afirmam que a Maçonaria é destinada a “homens bons e verdadeiros” que seguem a religião natural, frequentemente associada ao Noaquismo. Na prática, isso quer dizer que, não é necessário professar uma fé específica, desde que se acredite em um Ser Supremo e se siga uma moral universal. Essa visão permite uma maçonaria inclusiva, acolhendo pessoas de diversas crenças (monoteístas), sem comprometer os princípios espirituais básicos.
[5] O Iluminismo foi um movimento intelectual e cultural que surgiu na Europa no século XVII e alcançou seu auge no século XVIII, defendendo a razão, a ciência, a liberdade individual e a crítica às tradições e autoridades, especialmente à Igreja e à monarquia absolutista. Os pensadores iluministas acreditavam que o conhecimento racional e o progresso poderiam melhorar a sociedade e libertar os indivíduos da ignorância e da opressão. Suas ideias influenciaram profundamente as revoluções americana e francesa, bem como o surgimento dos direitos humanos e das democracias modernas.
[6] The Spirit of Masonry, escrito por William Hutchinson em 1775, é uma obra seminal que explora os fundamentos morais, espirituais e simbólicos da Maçonaria. Considerado um dos primeiros textos a abordar a dimensão religiosa e filosófica da fraternidade maçônica, o livro interpreta os graus maçônicos como etapas de uma jornada espiritual, alinhando-os com os princípios do cristianismo. Hutchinson enfatiza que a Maçonaria não é apenas uma associação social, mas uma escola de virtude e moralidade, destinada a elevar o caráter humano por meio da razão, da fé e da prática ética. A obra teve grande influência na tradição maçônica inglesa e é frequentemente citada como precursora da simbologia maçônica moderna.
[7] Os ritos maçônicos escandinavos, também chamados de ritos suecos ou sistema escandinavo, são uma vertente muito particular da maçonaria praticada principalmente na Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia e em algumas regiões da Alemanha e Finlândia. Eles se destacam por sua forte identidade cristã, sendo obrigatória a fé cristã (preferencialmente luterana) para a admissão e permanência de seus membros.

Grato pelo trabalho. Muito esclarecedor. Tfa