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“Que a Ordem Prospere!” Sentido Doutrinário e Cavaleiresco segundo Jean-Baptiste Willermoz

Por Rev.: Cav.: Wagner S. Ramos, CBCS — Editor-Chefe do CEPdoRER

A expressão ritual “Que a Ordem Prospere!”, pronunciada ao término dos trabalhos ou nas comunicações entre Irmãos, é uma das fórmulas mais antigas e sagradas do Rito Escocês Retificado. Apesar de sua aparência simples, ela encerra um voto profundo, um eco da doutrina primordial e um selo de fidelidade à Obra Divina que sustenta a própria existência da Ordem, não se tratando, portanto, de um lema voltado ao crescimento material ou profano.

No espírito de Jean-Baptiste Willermoz, fundador e legislador do Rito, essa fórmula não é uma saudação convencional nem um desejo de êxito exterior. É, antes, uma invocação espiritual, uma oração velada, pela qual cada Irmão renova silenciosamente seu compromisso com o desígnio eterno que governa nossa Instituição.

Na linguagem retificada, “a Ordem” não designa uma associação humana nem uma maçonaria reformada, mas o reflexo terrestre de uma Ordem celeste, preexistente e imutável, existente no seio do Criador desde a origem. Ao dizer “Que a Ordem Prospere!”, o iniciado pede que essa correspondência entre o Céu e a Terra se mantenha viva; que o elo entre o modelo e sua imagem não se quebre; e que a Obra visível permaneça digna de sua causa invisível.

Willermoz ensina, nas Instruções Secretas, que desde o princípio dos tempos existe uma Ordem Divina universal, fundada pelo próprio Criador e servida pelos Espíritos fiéis encarregados de manter a harmonia do mundo e reconduzir as criaturas desviadas à sua origem luminosa. A Ordem Retificada, especialmente a Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa (CBCS) é apenas a sombra terrena desse arquétipo, instrumento temporal por meio do qual a Providência opera na humanidade caída a restauração da verdade, da justiça e da luz interior.

Assim, dizer “Que a Ordem Prospere!” é afirmar o desejo de que a Obra terrestre permaneça fiel ao seu modelo celeste; que a pureza do desígnio divino não seja corrompida por paixões humanas; e que a linhagem espiritual dos “homens de desejo”, servos do Cristo e da Verdade, jamais se extinga. Prosperar, no sentido mais autêntico, significa permanecer fiel ao Princípio, e a fidelidade é a primeira forma da prosperidade espiritual.

Na visão de Willermoz, a prosperidade da Ordem não se mede pelo número de membros, por riquezas, influência ou prestígio profano. Esses sinais exteriores, embora úteis às obras humanas, nada dizem sobre sua vitalidade espiritual. A verdadeira prosperidade é interior e invisível: reside na pureza das intenções, no crescimento das virtudes e no aperfeiçoamento moral dos Irmãos.

O RER ensina que cada Irmão é um templo vivo, uma pedra do edifício místico que representa a humanidade reconciliada com seu Criador. Quando cada pedra se purifica, o templo resplandece; quando cada coração se eleva, a Ordem inteira se eleva com ele. Assim, a Ordem prospera pela elevação moral e espiritual de seus membros, e não por glórias materiais, políticas ou egóicas.

“Que a Ordem Prospere!” é, portanto, um apelo à transformação interior. O Cavaleiro Benfeitor, grau culminante da Ordem Interior, é ou deveria ser o servidor por excelência dessa prosperidade. Seu título o define: “Benfeitor” porque pratica a caridade material e espiritual e irradia a bondade divina; “da Cidade Santa” porque pertence espiritualmente à Jerusalém Celeste, pátria das almas reintegradas. A prosperidade da Ordem depende da ação silenciosa e elevada desses Cavaleiros no mundo.

Cada ato de virtude, cada palavra reta, cada gesto de luz é uma semente lançada no campo espiritual da humanidade. A Ordem prospera quando a caridade floresce, quando a justiça se manifesta e quando a paz se estabelece ao redor daqueles que trabalham sob o estandarte do Cristo. O Cavaleiro é chamado a ser ponte entre o visível e o invisível; sua espada, símbolo da palavra purificadora, corta as trevas da ignorância e protege a semente divina que habita no homem. Sua beneficência é o motor dessa prosperidade livre de ambições, de política profana e de interesses do ego.

Na doutrina da Reintegração dos Seres, herdada de Martinès de Pasqually e depurada por Willermoz, toda prosperidade autêntica é um retorno ao Princípio. Prosperar é voltar-se para dentro, acumular riquezas espirituais e reconhecer a origem divina do próprio ser. Quando a Ordem prospera, ela realiza esse movimento de reintegração em seus membros: despertar da consciência, ascensão da alma, restauração da harmonia perdida.

A saudação ritual ressoa em cada reunião como um lembrete dessa meta transcendente. É o eco terrestre de uma oração celeste, pela qual os seres fiéis pedem que a Obra Divina continue a manifestar-se no mundo, conduzindo os homens à verdade e à união com o Cristo.

Para Willermoz, o Rito Retificado é inseparável da Revelação cristã; seus ritos e doutrina exprimem a realidade espiritual segundo a qual Cristo é o eixo do mundo e o mediador entre o homem e Deus. A Ordem só prospera quando permanece unida a esse eixo, vivendo segundo o espírito do Evangelho. Sua prosperidade é a prosperidade do Cristo no coração dos seus servos: quando ela se purifica, o Corpo místico se fortalece; quando se desvia, ele sofre moral, espiritual e até fisicamente.

A fidelidade à doutrina, à virtude e à caridade é a única garantia de sua prosperidade real. Assim, a saudação final é um ato de comunhão com a Obra redentora do Verbo Encarnado: um pedido para que a Luz continue a irradiar, a Verdade se manifeste internamente e que os desvios da Ordem sejam breves, para que todos reencontrem o caminho do Espírito.

Dizer “Que a Ordem Prospere!” é renovar o juramento de fidelidade à Obra Divina, reafirmar a vocação do Rito Retificado como instrumento de Reintegração e recordar a cada Irmão que a verdadeira prosperidade é interior, silenciosa e eterna. Essa fórmula é ao mesmo tempo bênção e missão: bênção, ao invocar a assistência da Luz Divina sobre todos os Irmãos; missão, ao exortar cada um a trabalhar pela regeneração moral e espiritual da humanidade.

Aqueles que compreendem o seu sentido não a pronunciam levianamente, pois sabem que nela se resumem o dever, a fé e a esperança do verdadeiro Cavaleiro Benfeitor nunca do profano recoberto de capa e espada sem a devida pureza interior.

Quando a Ordem prospera, é porque Céu e Terra se reencontram; porque a Obra do Cristo prossegue nos templos interiores; porque a promessa da Reintegração se cumpre gradualmente nos corações fiéis. E assim, consciente do voto que pronuncia, o iniciado pode enfim dizer, em espírito e verdade:

“Que a Ordem Prospere, na Luz, na Caridade e na Verdade, até o retorno de todas as coisas ao Princípio.”

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