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Um encontro decisivo para Willermoz e para o RER

Willermoz e Martinès de Pasqually: O Encontro que Mudou a História da Maçonaria Espiritual

Foi em 1767, durante uma estada em Paris, que Jean-Baptiste Willermoz conheceu aquele que transformaria para sempre sua vida espiritual e maçônica: o enigmático Joachim Martinès de Pasqually (1727(?)–1774). De origem incerta — alguns acreditam que fosse português, outros o situam na Espanha —, era descendente de marranos, judeus convertidos à força ao catolicismo na Península Ibérica desde o século XV. Figura envolta em mistério, Martinès desenvolveu uma doutrina espiritual marcada pela influência da gnose, da mística pitagórica e da cabala, coroada por práticas de caráter ocultista e teúrgico.

A queda do Homem e a esperança de reintegração

No cerne de sua doutrina, Martinès sustentava que o Homem original fora emanado diretamente de Deus com a missão de vigiar os anjos rebeldes aprisionados após a queda de Satanás. Contudo, corrompido por esses mesmos espíritos, o Homem também caiu, afastando-se de sua condição primordial.

A meta da chamada Doutrina Martinezista era, portanto, restaurar o ser humano à sua pureza primeira. Mas, segundo Martinès, havia um detalhe decisivo: a Bíblia revelava duas linhagens. De um lado, a de Caim, condenada e sem salvação. De outro, a de Seth, reservada aos eleitos, os únicos com possibilidade de reintegração. Para comprovar essa ascendência sethiana, o discípulo deveria recorrer a complexas operações teúrgicas, através das quais seria possível entrar em contato com entidades espirituais — algo impossível aos descendentes de Caim.

A Ordem dos Elus Coens do Universo

Com base nesse sistema, Martinès fundou uma ordem para-maçônica destinada a preservar sua doutrina e suas práticas: a Ordem dos Elus Coens do Universo, cujo ápice era o grau de Réau-Croix. Diferente das lojas maçônicas tradicionais, essa Ordem funcionava como uma espécie de sacerdócio oculto, que recrutava cuidadosamente apenas maçons considerados preparados para enfrentar tais mistérios.

A sede central ficava em Bordeaux, cidade de residência de Martinès. Em Paris, no entanto, ele havia estabelecido um Tribunal Soberano, presidido por Jean-Jacques Bacon de la Chevalerie (1731–1821), maçom de destaque na Grande Loja da França, natural de Lyon e amigo próximo de Willermoz. Foi justamente durante uma visita a Bacon, em 1767, que Willermoz tomou conhecimento da existência da misteriosa Ordem. Fascinado, aceitou o convite e foi iniciado pelo próprio Martinès.

Para Willermoz, aquele parecia ser o encontro de sua vida: finalmente acreditava ter encontrado a verdade que buscara por tantos anos. De imediato, abraçou a doutrina com entusiasmo, recebeu autorização para fundar um Grande Templo Coen em Lyon e tornou-se amigo de Louis-Claude de Saint-Martin, o célebre “Filósofo Desconhecido” (1743–1803), secretário de Martinès e mais tarde inspiração do martinismo moderno.

A perseverança de Willermoz diante do silêncio espiritual

Apesar de sua devoção inabalável, Willermoz jamais obteve os resultados sobrenaturais que esperava das operações teúrgicas. Realizou-as com rigor, disciplina e fé, mas nunca presenciou qualquer manifestação espiritual. Esse traço o torna uma figura particularmente comovente: mesmo diante dos fracassos, manteve-se perseverante, sustentado pelas cartas de Martinès, que sempre encontrava justificativas para a ausência de resultados concretos. Onde muitos teriam desistido, Willermoz insistiu.

A partir de então, sua dedicação aos Elus Coens tornou-se prioridade. Distanciou-se gradualmente da Grande Loja dos Mestres Regulares de Lyon, à qual até então se dedicara.

O cenário político e a desaceleração da maçonaria francesa

Convém lembrar que, em 1768, por ordem do tenente-geral de polícia Sartine, as atividades maçônicas foram oficialmente suspensas em todo o reino da França. O estopim teria sido uma rixa ocorrida na entrada de um templo parisiense em dezembro de 1772. Embora a proibição nunca tenha sido plenamente aplicada, a medida freou sensivelmente o dinamismo da maçonaria francesa até meados de 1774.

Nesse ambiente de incerteza, a causa dos Elus Coens representava para Willermoz uma alternativa de fervor espiritual, distinta das disputas e tensões da maçonaria oficial.

A morte de Martinès e o declínio da Ordem

Em 1772, Martinès partiu para Saint-Domingue (atual Haiti) a fim de reivindicar uma herança. Prometia regressar em um ano e manteve, ainda que com menor regularidade, correspondência com seus discípulos. No entanto, adoeceu e faleceu em 1774, deixando a Ordem sem seu guia e sem um sucessor capaz de sustentar a coesão da obra.

Sem o fundador, a maioria dos templos retomou a rotina como simples lojas da Grande Loja da França, que em 1773 se transformara no Grande Oriente da França. Apenas o templo de Lyon, dirigido por Willermoz, resistiu. Ainda assim, estava claro que, sem as manifestações espirituais que tanto aguardava e sem a liderança de Martinès, a Ordem dos Elus Coens dificilmente sobreviveria.

Restava, portanto, um desafio para Willermoz: encontrar uma nova estrutura capaz de abrigar e perpetuar a doutrina martinezista. Qual seria esse caminho? Essa busca abriria um novo capítulo na história da espiritualidade maçônica europeia.

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