Willermoz e o Rito Escocês Retificado: Entre a Revolução, o Misticismo e a Sobrevivência
Jean-Baptiste Willermoz havia conseguido realizar, ao menos em parte, o grande projeto de sua vida: a criação de um novo rito maçônico capaz de abrigar a doutrina de Martinès de Pasqually, que ele considerava ser o verdadeiro segredo da maçonaria. O Regime Escocês Retificado nascera, carregado de ambição espiritual e profundidade mística. No entanto, a história nem sempre se curva às intenções humanas. É impossível prever o que teria se tornado esse rito se não fosse o advento da Revolução Francesa, em 1789, que viria a transformar radicalmente a paisagem política, social e iniciática da França.
A Maçonaria na Revolução: silêncio e exílio
Desde os primeiros passos da Revolução, a maçonaria francesa tornou-se cada vez mais discreta. No período sombrio do Terror (1793–1794), mergulhou praticamente em um sono profundo. Enquanto algumas figuras de destaque se alinharam abertamente às novas ideias revolucionárias — como Luís Filipe, duque de Orléans, Grão-Mestre do Grande Oriente da França —, outros, pertencentes à velha aristocracia, escolheram o exílio. Entre eles estava Anne Charles Sigismond, duque de Montmorency-Luxembourg (1737–1803), braço direito do Grão-Mestre.
Para o Regime Escocês Retificado, o contexto era especialmente desfavorável. O rito já sofria com a falta de interesse de muitos de seus dirigentes pelas lojas simbólicas, que preferiam dedicar-se ao mesmerismo e às enigmáticas comunicações de um suposto Agente Desconhecido. A tormenta política apenas acentuou essa fragilidade.
Os Iluminados de Avignon: novas influências espirituais
No entanto, Willermoz não se deixou paralisar. Nos primeiros anos da Revolução, ele voltou-se ainda mais ao estudo dos altos graus maçônicos e aproximou-se dos Iluminados de Avignon, grupo fundado por Dom Pernety (1716–1796).
Ex-monge beneditino de fé católica pouco ortodoxa, Pernety era um apaixonado pela alquimia e atribuía grande importância à Virgem Maria e aos anjos, considerados mediadores do divino. Em torno de 1783, havia criado os Iluminados de Avignon, um movimento espiritualista que seguia suas ideias, mas que não se constituía propriamente como um rito maçônico. Aliás, até hoje não se sabe ao certo se o próprio Pernety era maçom. De todo modo, suas concepções encontraram eco em maçons espiritualistas, e entre eles, naturalmente, em Willermoz.
Contudo, a realidade histórica se impôs com violência. A França mergulhava em convulsão, e Willermoz viu seu tempo para investigações esotéricas se esvair.
O Maçom e o Revolucionário Relutante
Em 1791, persuadido por dois Grandes Professos de Lyon — Millanois e Périsse du Luc, ambos deputados à Assembleia Nacional —, Willermoz tomou uma decisão surpreendente: aderiu à Sociedade dos Amigos da Constituição de Lyon, vinculada ao influente Clube dos Jacobinos de Paris.
Essa escolha, feita contra a opinião de muitos de seus irmãos, representou uma ruptura com boa parte dos maçons retificados, majoritariamente hostis à Revolução. A decisão abalou inclusive sua amizade com Joseph de Maistre (1753–1821), pensador católico conservador, que via com desconfiança qualquer aproximação com os ideais revolucionários.
O Filantropo de Lyon: o Hôtel-Dieu
Apesar das divisões políticas, a reputação filantrópica de Willermoz lhe valeu, ainda em 1791, um cargo de grande responsabilidade: foi nomeado um dos oito administradores do Hôtel-Dieu de Lyon, hospital religioso recentemente secularizado.
De imediato, lançou-se à tarefa de reerguer a instituição, que enfrentava uma grave crise econômica. Graças a sua determinação, restabeleceu o abastecimento, garantiu melhores condições para os enfermos e, com o tempo, conseguiu formar reservas em benefício dos mais necessitados.
O Terror em Lyon: perseguição e fuga
Mas em 1793, o Terror chegou a Lyon. A cidade apoiara os girondinos contra os jacobinos, o que levou a Convenção a enviar tropas para sufocar a resistência. O cerco começou em agosto. Lyon foi bombardeada e, em 9 de outubro de 1793, finalmente caiu.
A repressão foi brutal. Muitos lionenses pagaram com a vida, e entre os executados na guilhotina estavam François Henri de Virieu (1754–1793) e Antoine Willermoz, irmão de Jean-Baptiste, ambos Grandes Professos do Regime Escocês Retificado.
O próprio Willermoz escapou por um triz, em 6 de janeiro de 1794. Antes de fugir, teve ainda o cuidado de salvar seus preciosos arquivos, colocando-os em segurança em 8 de agosto de 1793. Refugiou-se, então, na casa de outro irmão, no departamento de Ain.
A Queda de Robespierre e o Retorno
O pesadelo terminou em 9 de Termidor do Ano II (27 de julho de 1794), quando um golpe pôs fim ao domínio de Robespierre e dos jacobinos. O próprio líder da Revolução foi guilhotinado no dia seguinte, em 28 de julho.
Poucos meses depois, em 10 de novembro de 1794, Willermoz retornava a Lyon. Reassumiu seu posto de administrador do Hôtel-Dieu e continuou a desempenhar papel ativo na vida pública da cidade.
Dois anos depois, em maio de 1796, já com 65 anos, surpreendeu mais uma vez seus contemporâneos: contraiu matrimônio com Jeanne Marie Pascal, jovem de apenas 24 anos.
Entre a História e o Mistério
A trajetória de Willermoz durante a Revolução Francesa revela o quanto o destino do Regime Escocês Retificado esteve entrelaçado às convulsões políticas e sociais de sua época. Filósofo, místico e filantropo, ele sobreviveu aos horrores do Terror, manteve viva a chama da doutrina martinezista e deixou como legado um rito que, apesar das adversidades, jamais desapareceu.
O que teria se tornado o Regime caso a Revolução não tivesse eclodido? Essa é uma pergunta impossível de responder, mas talvez seja justamente o confronto com a história que moldou o R.E.R. como o conhecemos: um caminho espiritual que resiste ao tempo, entrelaçando mística, cavalaria e fé cristã.

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