Willermoz e a Reforma de Lyon: Renovando o Espírito da Maçonaria Templária
Embora intimamente ligadas à Estrita Observância, as províncias francesas jamais haviam seguido de forma plena o funcionamento da ordem. As lojas simbólicas permaneciam vinculadas ao Grande Oriente da França, enquanto a Ordem Interior dependia diretamente da direção alemã, uma divisão que naturalmente gerava dificuldades e tensões.
Por volta de 1777, os maçons de Estrasburgo, desejando maior autonomia, sugeriram a convocação de um convento reunindo as províncias francesas da Ordem. Willermoz apoiou a iniciativa, mas movido por motivos próprios: a busca incessante por conhecimentos espirituais superiores, algo que já havia marcado sua trajetória.
A decepção com a Reforma de Dresden
Willermoz via na Reforma de Dresden a possibilidade de descobrir segredos espirituais tão profundos quanto aqueles que aprendera com Martinès de Pasqually. No entanto, rapidamente se deu conta de que os rituais transmitidos pelos superiores alemães eram pouco inspiradores.
Os três graus simbólicos apresentavam-se banais, com exceção de algumas alusões à lenda templária; em essência, repetiam padrões já conhecidos entre 1740 e 1760, mas de forma empobrecida. O grau de Escocês Verde, por exemplo, limitava-se a pedir que o recipiendário imitasse quatro virtudes atribuídas a animais: o valor e generosidade do leão, a destreza do macaco, a clarividência do gavião e a astúcia da raposa. Revelava ainda que Hiram se levantaria do túmulo sob o nome de NOTUMA, anagrama de AUMONT, suposto sucessor de Jacques de Molay segundo a lenda da Estrita Observância.
Quanto aos graus da Ordem Interior, abertamente cavalheirescos e templários, as cerimônias de recepção de Noviço, Cavaleiro e Cavaleiro Professo limitavam-se a reproduzir rituais das ordens religiosas e militares católicas, sem qualquer inovação real.
O desejo de criar um rito martinezista
O sonho de Willermoz era criar um novo rito, profundamente martinezista, mas dentro de uma estrutura obediencial existente. Junto a um pequeno grupo de irmãos de confiança em Lyon e Estrasburgo, concebeu o Regime ou Rito Escocês Retificado e a Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa.
O trabalho inicial partiu de uma proposta de Estrasburgo: transferir o grau de Escocês Verde da Ordem Interior para os graus simbólicos. Willermoz contou com o auxílio de Jean André Périsse du Luc, Jean Braun e Jean Paganucci, da província de Auvergne (Lyon), e de Friedrich Rudolf Saltzmann, da província da Borgonha (Estrasburgo), para a reescrita dos graus simbólicos, incluindo o 4º. Jean de Turckheim, de Estrasburgo, cuidou da Ordem Interior, dos graus de Escudeiro e Cavaleiro. Willermoz, por sua vez, reservou para si os graus superiores e secretos: o Professo e o Grão Professo, nos quais expôs claramente a doutrina de Martinès, apenas sugerida nos graus anteriores.
O passado templário e a escolha do novo título
Uma questão relevante surgiu durante o processo: a Ordem realmente descendia dos Templários? Para Willermoz, isso não importava. Restaurar bens materiais da Ordem do Templo pouco lhe interessava; considerava tais buscas materialistas tão suspeitas quanto a alquimia, da qual já se afastara anos antes. Embora reconhecesse a injustiça da condenação dos Templários, não podia ignorar que abusos haviam ocorrido ao longo de sua história. Como francês e fervoroso católico, temia ainda desagradar ao poder real, que poderia enxergar qualquer restauração como subversiva.
Decidiu então abandonar o título de Cavaleiro do Templo, adotando o de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa. Este título não era invenção sua: já existia em sistemas de altos graus desde 1770, no capítulo da loja Saint-Théodore de Metz. O grau representava São Martinho cortando seu manto para dividir com um mendigo, sendo a Cidade Santa, neste caso, Roma.
O título agradava a Willermoz por dois motivos: “Cavaleiro Benfeitor” refletia a ideia de que o maçom deve agir com beneficência real, não apenas palavras, e a “Cidade Santa” podia simbolizar Jerusalém, evocando a herança espiritual dos Templários — os Pauperi Commilitones Templi in Sancta Civitate, ou Pobres Companheiros de Armas do Templo na Cidade Santa. Assim, reivindicava a essência espiritual da ordem, sem se preocupar com seu fim material.
O Convento das Gálias e a vitória da visão de Willermoz
O resultado desse trabalho foi apresentado no Convento das Províncias Francesas, realizado em Lyon em 1778, conhecido como Convento das Gálias. Willermoz submeteu também um novo Código, que regulamentava os rituais e a nova concepção espiritual da Ordem.
As discussões foram intensas. Nem todos os participantes estavam dispostos a abandonar a lenda templária ou abrir mão da recuperação material dos bens da Ordem. No entanto, o partido de Willermoz venceu: os novos rituais, ainda incompletos, o novo Código e a ligação puramente espiritual com a herança templária foram aprovados.
As decisões do Convento das Gálias ficaram conhecidas como a Reforma de Lyon, marcando o início do Regime ou Rito Escocês Retificado e da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, que logo se estenderiam por toda a Ordem, consolidando a visão espiritual de Willermoz e a herança martinezista.

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